sábado, 11 de novembro de 2017

Cinema Paraíso: Luís Neiva - Rosemary's Baby (1968)

Rosemary’s Baby

País: EUA
Ano: 1968
Realizador: Roman Polanski
Argumento: Roman Polanski (a partir do romance de Ira Levin)
Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sydney Blackmer

Um jovem casal muda-se para um apartamento no centro de Nova Iorque: Guy (Cassavetes) – um ambicioso actor à espera do papel certo que o levará ao estrelato – e Rosemary (Farrow), uma frágil, mas optimista, jovem completamente apaixonada pelo marido e com quem sonha ter um filho. O destino sorri-lhes: rapidamente se tornam amigos de um idoso casal de vizinhos (Gordon e Blackmer), que apesar de metediços se revelam extremamente prestáveis. Guy consegue finalmente a tão desejada oportunidade e Rosemary descobre que está grávida. Contudo, a gravidez acaba por trazer complicações inesperadas e Rosemary começa a recear uma conspiração com contornos sobrenaturais que pode colocar em risco a vida do seu bebé.

Rosemary’s Baby é, sem dúvida alguma, um dos mais influentes filmes de terror da história e, ao mesmo tempo, um exemplar muito especial dentro do género por serem practicamente inexistentes os momentos de gore ou os tão característicos jumpscares. No entanto, isto não lhe retira qualquer impacto graças a uma majestosa realização de Roman Polanski, que é capaz de criar uma atmosfera extremamente envolvente e, acima de tudo, repleta de ambiguidade.

Esta atmosfera é instalada desde o primeiro momento do filme, durante o genérico, na melodia sombria, mas algo familiar, entoada por Mia Farrow. A natureza desta melodia não é clara, mas o facto de ser recuperada em alguns momentos-chave do filme, como quando Rosemary descobre que está grávida ou quando sente o primeiro movimento do bebé, sugere-nos que a função deste motivo é mais do que simplesmente introduzir o espírito do filme. De facto, na última cena torna-se claro que a tão misteriosa melodia é, na realidade, uma canção de embalar, símbolo de comunhão entre a personagem principal e as forças que inevitavelmente vencem a batalha.

Polanski toma algumas decisões curiosas no que à construção das personagens diz respeito: durante a primeira secção do filme as personagens são desenvolvidas até à exaustão, o que lhes confere uma empatia bastante forte crucial no clímax final. Passamos a simpatizar com Rosemary, uma protagonista atipicamente débil, que se refugia no vanguardista corte de cabelo pixie como tentativa desesperada de assumir uma aparência forte e independente, mas que apenas acaba por tornar mais óbvia a sua fragilidade. Tal ligação é reforçada pelo facto de o enredo se revelar aos nossos olhos ao mesmo tempo que aos da jovem – até à cena final nunca é verdadeiramente claro o quão real é todo o lado místico do filme e facilmente damos por nós a pôr em causa tudo aquilo que nos parece lógico.

Importante também referir o espaço, que em Rosemary’s Baby assume uma autêntica qualidade de personagem. Sendo este o segundo filme da chamada “Trilogia do Apartamento” – série de filmes realizados por Polanski maioritariamente filmados no interior de uma casa – a atmosfera visual e sonora da habitação é, em si mesma, um prolongamento da já falada ambiguidade construída pelo realizador polaco. O apartamento, apesar de contar com um passado algo sinistro, é transformado por Rosemary num iluminado e agradável lar. Contudo, à serenidade proporcionada pela decoração do espaço é contraposta a inquietante sensação de que algo ou alguém nos está constantemente a observar – a sufocante presença dos vizinhos, o ansioso tic-tac do relógio em muitas cenas e o recorrente som de um piano vindo de um apartamento próximo são elementos que contribuem para que um sentimento de claustrofobia tome conta da cena.

Uma breve referência para o magnífico trabalho de representação de todo o elenco, com especial menção para Ruth Gordon, justa vencedora do Óscar de Melhor Actriz Secundária por tão inspirada performance.


Por tudo isto, não é surpresa que clássicos como The Exorcist ou a trilogia The Omen tenham na sua génese esta obra prima de Polanski. Ainda assim, a originalidade do realizador polaco confere a Rosemary’s Baby uma intemporalidade a que poucos filmes de terror podem aspirar.

8/10


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

The Man Who Knew Too Much - Luís Neiva

Cinema Sem Lei: Qual é o teu filme favorito?
Luís Neiva: Muda todos os dias! Mas o que mais me marcou foi o Pulp Fiction, e é aquele que mais vezes revisito, quando quero ver algo bom.

CSL: O que é melhor nesse filme? Banda sonora, actores, diálogos, plot?
LN: No filme em si, os diálogos, provavelmente. Mas é difícil dizer quando tudo na realização está tão bem feito. Adoro a maneira como o Tarantino escreve e como baseia todo o filme a partir do guião. O resto funciona quase sozinho (se os actores forem bons, é claro).
Por outro lado, respeito imenso o impacto que teve no mercado cinematográfico americano. Fazer um filme independente naquela altura em que os estúdios sugavam tanta criatividade requer um tipo muito especial de talento.

CSL: E de personalidade. Achas que a ligação com o caso do Weinstein pode prejudicar a carreira dele?
LN: Não diria. Hollywood tem memória muito curta.

CSL: Woody Allen está agora a fazer um filme controverso tendo em conta o momento e, principalmente, a história dele. Por falar no Allen, comédias dizem-te alguma coisa?
LN: Sim. Mas tenho uma preferência clara para as "clássicas", desde os filmes do Chaplin e do Keaton até à slapstick das décadas de 50 e 60.

CSL: Bom tema: Chaplin vs. Keaton. Em última análise, qual escolherias?
LN: A pergunta do milhão de dólares... Adoro coisas diferentes em ambos. O Keaton tem um tipo de humor mais físico, mais corajoso até. O Chaplin joga mais com as emoções humanas e com uma crítica social que eu considero simplesmente brilhante. Penso que talvez me decidisse pelo Chaplin.

Charlie Chaplin em City Lights (1931)

CSL: Eu ia para o Keaton. As coisas que ele fazia deixam-me de boca aberta. A cena do comboio a cair no rio é fantástica
Já que estamos numa de "batalhas", De Niro vs. Al Pacino. Tens resposta?
LN: Sim! O Keaton revolucionou imenso o aspecto técnico do cinema!
Estava na dúvida até ter visto o Dog Day Afternoon. A partir desse momento, o Al Pacino "ganhou-me". São dois gigantescos actores, embora me entristeça um bocado quase não ver o De Niro em grandes filmes actualmente.

CSL: Vem aí um com o Scorsese. Se me entusiasma ver o De Niro, Joe Pesci e Scorsese juntos, também tenho receio que vá cair quase numa paródia dos seus tempos áureos.
LN: Sim... Ultimamente a moda é fazer remakes e sequelas fora de tempo com qualidade, muitas vezes, duvidosa. Temo que esse filme siga essa onda. Mas se o Scorsese está à frente do projecto, acredito que seja capaz de evitar isso. O talento está lá, nenhum deles se esqueceu de representar.

CSL: Qual é, na tua opinião, a década dourada do cinema?
LN: Sem sombra de dúvida, as décadas de 40 e 50. Pelo menos em Hollywood.

CSL: Consegues aconselhar dois ou três filmes que valem a pena ver dessa época?
LN: Acho que o Citizen Kane e o Vertigo são obrigatórios por marcarem, na minha opinião, o início e o fim de uma era. Ainda há o Sunset Blvd. que é o meu noir preferido e embora seja já de 1961, o Judgment at Nuremberg que é um dos filmes da minha vida.

CSL: O que tem para considerares um dos filmes da tua vida?
LN: Pergunta difícil. Acho que há filmes que marcam, e isto é especialmente verdade quando se vêem muitos grandes filmes. Depois de ver centenas de obras primas seguidas quando vem um filme que se eleva acima de todos os outros e que cria em mim uma resposta emocional tão forte (como é o caso do Judgement at Nuremberg), é sinal que estou na presença de algo realmente especial.

CSL: Qual é o teu objectivo quando vês um filme?
LN: Gosto de ser surpreendido. Tento saber sempre o mínimo sobre cada filme que vejo, não vejo trailers, não leio sinopses. Óbvio que se aprende sempre alguma coisa com tudo o que se vê, se tiver qualidade, mas não é algo que procure activamente, simplesmente acontece.

CSL: De onde surgiu o teu interesse pelo cinema?
LN: Sempre gostei imenso de cinema, mas acho que me tornei cinéfilo no dia em que vi a Laranja Mecânica. O tipo de resposta emocional (e até física) que o filme me provocou, criou em mim uma obsessão de procurar mais vezes aquela sensação. É mesmo um vício. Mas dos bons!

A Clockwork Orange (1971) - Stanley Kubrick

CSL: Se tivesses oportunidade de trabalhar em cinema, em que área gostavas de trabalhar?
LN: Na realização. É o que mais valorizo em todos os filmes que vejo. Se fosse fora do processo de criação, por assim dizer, tenho um certo fascínio pela crítica cinematográfica.

CSL: Já apostaste na crítica? Escreves para algum lado?
LN: Tenho algumas críticas escritas mas nunca publiquei em lado nenhum. Faço parte de um fórum de cinéfilos em que a maioria dos membros é dos Estados Unidos e partilhamos muitas vezes as críticas que escrevemos uns com os outros, e eles são as únicas pessoas que já as leram.

CSL: A tua formação é musical, certo?
LN: Sim, sou licenciado em Canto e estou agora a concluir um Mestrado.

CSL: Qual é a importância da música num filme?
LN: É imensa. A principal característica que difere a música das outras formas artísticas é a sua propriedade de imediaticidade. A imagem tem de ser sempre interpretada antes de criar uma resposta emocional enquanto a música salta esse passo à frente. Tem a capacidade de potenciar ou anular tudo o que se passa no ecrã e muitas vezes criar efeitos opostos àquilo que percepcionamos visualmente. Lembro me sempre da cena do Stuck in the Middle With You do Reservoir Dogs.

CSL: Segunda referência ao Tarantino. É o teu realizador favorito?
LN: Não. Adoro tudo o que ele fez até ao Kill Bill 2, depois disso foi um.bocado hit and miss. O meu realizador favorito é o Kubrick.

CSL: 2001? É o que tem sido mais mencionado nestas conversas que estou a ter.
LN: Acho que a partir do momento em que ele se muda para Inglaterra em 1960, tudo aquilo que fez é ouro. O 2001 é sem dúvida incontornável e um dos meus filmes preferidos mas é difícil eleger um favorito. Talvez o Barry Lyndon ou a Laranja.

CSL: E da nova geração, algum realizador/a te chama a atenção?
LN: Não sei se se podem chamar nova geração, mas gosto muito do Aronofsky e do Almodóvar. E há um realizador de que falo sempre por ser quase desconhecido do público português e de quem gosto imenso que é o José Vieira. Um emigrante português em França, que faz documentários, muitos deles sobre a temática da emigração.

CSL: Tens sugestões de documentários? Não necessariamente do José Vieira.
LN: Do J. Vieira há um filme que eu adoro que é o Souvenirs d'un Futur Radieux. Também recomendo o Nuit et Brouillard, Die Macht der Bilder: Leni Riefenstahl, Olympia, Exit Through the Gift Shop, Baraka, Dear Zachary: A Letter to a Son About his Father.

CSL: Para terminar:
- um filme que te emocionou;
- um que te fez rir;
- um que mudou a tua vida;
- um que vale a pena rever todos os anos;
LN: - All Quiet on the Western Front
- Bringing Up Baby
- Naked
- C'era una Volta il West

Luís Neiva
26 anos
Mestrado em Música (canto)



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

The Woman Who Knew Too Much - Inês André

Cinema Sem Lei: Qual é o teu filme favorito?
Inês André: Muito complicado... Acho o reportório do Miyazaki completamente imaculado, e por isso todos os filmes dele para mim, como o Howl's Moving Castle, Spirited Away, Totoro ou a Princesa Mononoke são obras-primas. Fora da animação, filmes como Little Miss Sunshine, Oldboy (original), Buffalo '66 ou o 2001 são grandes obras de arte também! Mas consigo estar aqui até amanhã a dizer-te mais filmes que são autênticos monstros cinematográficos. Sinto que estou a deixar muitos de fora.

CSL: O que te liga ao cinema? De onde surgiu esse interesse?
IA: Sempre esteve muito presente em minha casa, desde pequena que ver filmes em VHS era das minhas coisas preferidas (ainda é). Mas é curioso porque a minha irmã mais velha sempre gostou muito de cinema independente, e inicialmente eu era um bocado alérgica e gozava com essa faceta mais intelectual tipo "esses filmes são uma seca, não se passa nada" mas depois ela foi me mostrando alguns e mudei completamente de opinião. Aprendi a gostar e a apreciar e isso fez com que eu própria me "educasse" cada vez mais a esse respeito. Hoje sou uma verdadeira aficionada.
O que me liga ao cinema... Sou uma pessoa sensível, no sentido em que gosto de pensar e reflectir sobre a vida, constantemente. E o cinema não só me ajuda a chegar a algumas conclusões, como também me dá nova matéria para processar. Sinto-me compreendida quando vejo um filme que me deixa arrepiada. É uma ligação muito humana.

CSL: Lembras-te de algum filme que tenha ficado marcado? Desses da tua irmã.
IA: Sim! Um deles foi o Little Miss Sunshine. Vi uma vez e achei brilhantemente simples. Acho que é na simplicidade que encontramos a plenitude. Passou a ser daqueles filmes que por mais vezes que veja, e já vi e revi muitas vezes, aprendo sempre e nunca me farto. Acho que isso pode ser dos melhores elogios que podes fazer a um filme.

Little Miss Sunchine (2006) - Jonathan Dayton, Valerie Faris

CSL: Quando estudamos cultura e arte, o cinema tem um capítulo muito pequeno (às vezes nulo). Numa arte que tem mais de cem anos - mesmo sendo a mais jovem - não devia ser já uma fonte de ensino e conhecimento e não um ponto no meio do oceano?
IA: Sim, devia. Posso dar o exemplo que no secundário, nas minhas aulas de Filosofia, visualizamos muitas vezes filmes para ajudar a perceber pontos da matéria. Acho que devia haver mais exemplos como este, porque também ajudam ao teu crescimento intelectual. Mas é difícil, porque implica uma mudança de mentalidade. A maioria das pessoas não se interessa por cinema, interessa-se por entretenimento. Lembro-me de na faculdade um professor que eu tinha, que era um autêntico cinéfilo, passar o excerto das Valquírias do Apocalypse Now a título exemplificativo de alguma coisa e as reacções da turma eram "mas eu pago propinas para ver aviõezinhos?".  Cada um gosta do que gosta, mas há muito mais pré-disposição para encarar os filmes e procurar por filmes para passar tempo do que para encará-los como peças de arte, como instrução... É preciso sensibilidade, e não há muita. Mas talvez se a aprendizagem começasse cedo, as coisas poderiam ser diferentes.

CSL: Então consideras que a maioria vê os filmes para "desligar" o cérebro e não como fonte de informação?
IA: Sim, completamente. O que não quer dizer que não veja filmes para passar tempo e que não puxem tanto pela cabeça. Há muitos bons filmes que eu adoro desse género. Não sou nenhuma intelectualóide. Mas é óbvio que as pessoas preferem o fácil e simples, estão a ser habituadas a isso... Se tu fores hoje a um cinema mais popular reparas que 90 ou 70% são remakes, prequelas ou sequelas... É dinheiro fácil e não tens muito trabalho em ter ideias novas. É só reciclar com ou sem propósito. Ate nisto vês o estado do cinema. Entretenimento está na ordem do dia, acima de qualquer valor. O que se passa hoje é exactamente aquilo que o Vargas Llosa diz no A Civilização do Espectáculo. Ócio acima de tudo em detrimento de qualquer coisa que te faça pensar minimamente.

CSL: Pegando nos remakes. Porque se fazem? Consideras que os realizadores e produtores acreditam mesmo que vão conseguir fazer melhor ou simplesmente querem aproveitar o sucesso do original?
IA: Regra geral acho que a resposta é dinheiro fácil. Eu irrito-me facilmente com esta moda do remake e sequela, primeiro porque na maioria das vezes não fazem sentido e mexem numa história que estava bem acabada. Porquê um Trainspotting 2? Já para não falar do absurdo que é um Fight Club 2. É frustrante. 
Descobriram a galinha dos ovos d'ouro, o pessoal gosta da nostalgia, e faça ou não sentido é sempre giro rever. Já chego a acreditar que para além do dinheiro haja uma crise de criatividade... Será que não há ideias novas ou é preguiça de as ter? Irrita-me também porque sinto que muitas vezes estes remakes vêm desvalorizar o culto que havia em volta de alguns filmes. Eu adoro animação japonesa e sinto-me ofendida pelo que fizeram ao Ghost in the Shell ou ao Death Note. Não os vi (os novos), mas não fazia sentido. Para quê? Só se for para arruinar.
Mas há aqueles que conseguem fazer um bom trabalho. O Villeneuve acertou em cheio no novo Blade Runner. Mas esse considero um caso à parte. Deixa sempre aquela sensação do objectivo de fazer dinheiro fácil. Prefiro ideias novas!

CSL: Dizem que as histórias já foram todas contadas, só muda a maneira de as contar. Concordas?
IA: Nada. Se há coisa que não estagna são as ideias. Por alguma razão é que nesta onda de inteligência artificial a única coisa que fica ainda inconcebível é a criatividade! 
Tens sempre influências de realizadores para realizadores. Nos anos 70 e 80 estavas a fazer coisas nunca antes feitas, Kubrick é um génio por isso. Teve sorte em vir cedo. Agora tens realizadores que aproveitam a escola dele, mas incorporam em novas ideias. Acho natural. Na altura do Revenant estavam a insinuar que o Iñarritu tinha ido buscar a técnica toda ao Tarkovsky. E o que tem? Acho que é uma grande maneira de agradecer e prestar respeito. A ideia não era a mesma. O Wes Anderson também não é o génio por detrás dos planos simétricos, já existiram muitos a fazer antes dele. Mas criou com elementos muitos específicos um estilo próprio a partir daí.
As histórias são infinitas, pela conteúdo e pela forma como são contadas. É preciso é ter vontade de as criar e levá-las a sério. Até acho mais que a maneira de as contar é que pode ser repetitiva, mas nunca o conteúdo. As técnicas ou planos repetem-se. E faz sentido que assim seja.

CSL: Se tivesses oportunidade de trabalhar para o cinema, em que área gostavas de trabalhar?
IA: Animação, escrever histórias. E se um dia dominar o desenho também gostava de entrar nessa parte. Mas quero muito trabalhar em animação, mesmo não sendo da área de cinema...

CSL: Um estágio no estúdio Ghibli seria o sonho?
IA: Completamente. Não queria mais nada. Não me importava de trabalhar num estúdio de animação qualquer, mas claro que a Ghibli é o expoente máximo dessa vontade.



CSL: Miyazaki e Joe Hisaishi são uma dupla de sucesso. Que outras duplas do cinema gostas?
IA: Morricone com o Leone... Tarantino com o Rodriguez também fazem coisas engraçadas. Os irmãos Nolan também trabalham bem. Não me estou a lembrar de outros. Mas de certeza que há outras boas amizades. A velha guarda italiana também se ajudava uns aos outros. E fazia coisas muito giras.

CSL: Sugeres algum filme italiano da velha guarda?
IA: Confesso que ainda não vi tantos quanto gostava. Mas o Fellini Oito e Meio é grande filme. E claro os obrigatórios: Cinema Paraíso e A Vida é Bela. Gostava que o próximo a ver fosse o Ladrões de Bicicletas. O Feios Porcos e Maus também é muito bom. É sempre difícil escolher um.

CSL: Sugiro também o Umberto D.. Há algum género que não gostes particularmente?
IA: Obrigada! Fica na watchlist. Acho que não. Não tenho nenhuma alergia aos géneros, gostar ou não vai sempre depender do filme em si. Tanto gosto de um bom filme de animação, como bons filmes de drama ou gore... Mas não gosto de filmes do Adam Sandler, do Ben Stiller ou do James Franco

CSL: Para finalizar, escolhe:
- um filme que te emocionou;
- um que te fez rir;
- um que mudou a tua vida;
- um que vale a pena rever todos os anos;
IA: - The Kingdom of Dreams and Madness
- Borat
- Blue Velvet
- Senhor dos Anéis

Inês André
23 anos
A tirar mestrado em Publicidade e Marketing





quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Review: Young Frankenstein (1974)

Young Frankenstein (1974)

Top 10 no que toca a comédias. Não sei quais serão exactamente (Billy Wilder está bem no topo), mas Young Frankenstein tem a genialidade de ser muito mais do que isso. É um mini Frankenstein (1931) com apontamentos (muito bons) de comédia. Ao contrário de Blazing Saddles, onde percebemos que estamos a ver um filme cujo objectivo é rir do início ao fim, os primeiros quatro/cinco minutos são tão bem escritos, realizados e produzidos (usaram partes do cenário de Frankenstein) que nos esquecemos completamente que estamos a ver uma película de Mel Brooks. E não é só o início. Durante todo o filme temos pequenos momentos de tensão que nos transportam para o thriller que este filme não é. Tudo isto funciona ainda melhor quando a habitual cameo appearance de Brooks não existe. A eventual cameo de uma figura que associamos logo ao humor iria desvirtuar tudo o que tinha sido alcançado até ali.
Gene Wilder é magnânimo, Madeline Kahn esplêndida, mas Marty Feldman é a cereja no topo do bolo. Basta um olhar (e que olhar característico o dele) para ganhar a cena. Já pelo lado negativo o destaque vai para Peter Boyle, o Monstro. Para um filme que parece querer imitar quase na perfeição o de 1931, este Monstro está longe do protagonizado por Boris Karloff. Não tem presença, a caracterização também não é sublime (ao contrário dos cenários). É quase risível. Característica apropriada para comédias, não fosse tudo o resto querer parecer sério.
Recomendo. E, no que toca a comédias, poucas vezes direi isto.

8/10
R.D.


Review: The Invisible Man (1933)

The Invisible Man (1933)

Baseado no livro de H. G. Wells, o filme de 1933, realizado por James Whale, faz parte dos monstros  clássicos da Universal. Whale foi o realizador de Frankenstein (1931) e ainda viria a realizar The Bride of Frankenstein (1935), mas The Invisible Man faz jus a estes? A resposta, para mim, é... Nem por isso. O filme retrata a loucura e o abuso de poder. Sem crescendo. São praticamente setenta minutos que se atropelam. Não há tempo para estabelecer empatia com as personagens, tudo parece exagerado e precipitado. O potencial está lá todo, só não foi bem aproveitado (diz um gajo qualquer sentado em frente a um computador).  É verdade que não li o livro e talvez a narrativa seja mesmo assim, mas por alguma razão o filme é baseado e não copiado. Certas cenas precisavam de tempo para respirar.
Nem tudo é mau, aliás, os efeitos especiais são sublimes. Sem "para a época". É o primeiro filme de Claude Rains nos Estados Unidos (teria uma carreira de sucesso com Mr. Smith Goes to Washington (1939), Casablanca (1942), Notorious (1946) ou ainda Lawrence of Arabia (1962). Henry Travers, o famoso anjo de It's a Wonderful Life (1946) também dá a sua perninha e Gloria Stuart, a Rose idosa de Titanic (1997) também marca presença.
Resumidamente, é um filme que já leva umas três ou quatro sequelas e provavelmente algum remake. Esqueçam tudo o que disse, o mais provável é que não perceba nada disto.

6/10
R.D.


O novo filme de Tarantino está previsto para 2019

O primeiro filme de Tarantino sem Harvey Weinstein já tem guião. Ainda sem confirmações, os nomes de Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Jennifer Lawrence, Margot Robbie e o recorrente Samuel L. Jackson estão em cima da mesa para o filme que se baseará na família Manson.
Ainda sem produtora, é previsto que o filme seja rodado em 2018 com estreia marcada para 2019.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

The Man Who Knew Too Much - João Correia

Cinema Sem Lei: Qual é o teu filme favorito?
João Correia: Casablanca. É aquele que gosto mais dentro dos meus favoritos.

CSL: Um filme a preto e branco, de 1942. Alguma vez notaste essa repulsa, na nossa geração, com os filmes antigos?
JC: Sim, já notei. Quando falo com os meus colegas sobre cinema começam a gozar comigo por ver filmes a preto e branco. Acho que há um preconceito instalado na nossa geração (em grande parte dela), que por um filme ser a preto e branco, o estilo de imagem, os tipos de actuações e essas coisas serem diferentes aos de hoje é considerado um tipo de cinema inferior... Muitas vezes nem é por mal, é mesmo por falta de conhecimento e dificuldade de acesso a estes. Eu próprio, antes de começar a ver filmes antigos, tinha uma certa resistência a estes, mas quando comecei a ver, fiquei um completo viciado e procuro, de todas as formas, junto aos meus amigos e familiares inverter este tipo de preconceito.

CSL: Casablanca é um dos filmes mais icónicos e citados de sempre. Qual é a tua quote ou cena favorita?
JC: Tenho duas cenas favoritas: Quando a Ilsa pede ao Sam para tocar a As Time Goes By e a cena da La Marseillaise. A cena final também é maravilhosa. É muito difícil para mim escolher uma só.



CSL: Casablanca é um drama sobre guerra e também um romance. É esse o género de filmes que mais gostas?
JC: Gosto de diversos géneros, vejo todo o tipo de cinema, à excepção de filmes de terror... Adoro drama, romance, mas também adoro suspense, animação, comédia, etc.

CSL: Quando começou o teu interesse por cinema?
JC: Desde pequenino que gosto de cinema, mas intensificou-se há três anos. Uma amiga minha começou a recomendar filmes antigos e a partir daí nunca mais deixei de ver. Vi perto de 700 filmes desde aí. Foi de descoberta em descoberta. Já tive fases de cinema americano, francês, italiano, japonês, chinês e português.

CSL: Qual foi o último filme português que viste?
JC: Um Filme Falado do Manoel de Oliveira. Esse ou O Pátio das Cantigas, já não me lembro bem.

CSL: O original ou o remake?
JC: O original. Não vi nenhum dos remakes que fizeram dos clássicos portugueses.

CSL: Qual é a tua opinião sobre o cinema português? Temos uma nova geração de realizadores e público que estão a dar uma nova vida ao nosso cinema, mas a verdade é que em última instância, entre uma comédia romântica de qualidade duvidosa ou um filme português, escolhem a primeira opção. O que falha?
JC: Primeiro, acho que o cinema português é desprezado por grande parte dos portugueses e esses remakes só tiveram sucesso porque são puramente comerciais, plásticos, baseados em filmes que fazem parte de diversas gerações de portugueses. O nosso país, em termos de cinema, é muito americanizado e talvez seja por isso que, qualquer filme português, tenha grandes dificuldades em se afirmar... É uma pena, porque há muito bom cinema por aí... Tabu, por exemplo, é um dos filmes que mais gosto, é de uma beleza indescritível e que todos os portugueses deveriam conhecer. A maior parte dos portugueses só vê filmes americanos.

CSL: Então o que deve fazer o cinema português para se popularizar? Ser mais americano ou manter-se fiel e esperar que a adaptação seja do público?
JC: Deve haver uma maior promoção do nosso cinema. Não se deve americanizar. O cinema de cada país tem a sua marca, a sua identidade e é isso que os torna únicos e distintos... Em Portugal, o que falta mesmo, é conhecimento do nosso cinema.

CSL: Já falámos no Tabu, consegues sugerir mais dois ou três filmes portugueses para os nossos seguidores verem?
JC: Para além do Tabu, os meus filmes portugueses são: Os Verdes Anos, a Comédia de Deus e a Viagem ao Princípio do Mundo. Também adoro a Canção de Lisboa.

Tabu (2012) - Miguel Gomes

CSL: Se trabalhasses no cinema que função gostavas de assumir?
JC: Não sei, talvez realizador, apesar de não ter formação na área. É um sonho que não se irá cumprir...

CSL: Hoje em dia podes fazer filmes com telemóveis. Achas que essa pode ser uma das razões para a perda de popularidade do cinema? Praticamente qualquer um pode fazer um filme independente. O cinema está mais democrático e isso pode trazer coisas boas e más.
JC: Acho que o cinema continua popular, especialmente aquele que é feito para as massas. Há filmes independentes bons e maus, é como tudo, mas no geral, acho que é uma boa forma de inovação.

CSL: Vais com regularidade ao cinema?
JC: Não vou tantas vezes como queria, mas costumo ir 3 a 4 vezes por ano. O cinema mais próximo fica um bocado longe da minha zona.

CSL: O que te leva a ver um filme no cinema?
JC: Costumo ir ao cinema com amigos, por isso acabo sempre a ver filmes de super-heróis, que gosto relativamente. Há filmes de super-heróis que são muito bons e outros em que fica um sabor a nada.

CSL: Os filmes de super-heróis nunca estiveram tão na moda como hoje em dia. Ainda prevês uma vida longa para este cinema?
JC: Penso que ainda dure uns anos, as pessoas ainda não se cansaram deste tipo de filmes.

CSL: Para finalizar, escolhe:
- um filme que te emocionou;
- um que te fez rir;
- um que mudou a tua vida;
- um que vale a pena rever todos os anos;
JC: - Umberto D.
- Some Like it Hot
- Casablanca
- It's a Wonderful Life


João Correia
22 anos
Solicitador estagiário